13 de janeiro, 2018
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Bloco em SP quer celebrar único militar reconhecido pela Justiça como torturador, por Rute Pina

BRASIL DE FATO: “É um ato lamentável contra os direitos humanos em apologia a crimes de lesa-humanidade” diz historiadora. Um grupo de extrema direita quer celebrar, no carnaval paulistano, as torturas da ditadura militar. A convocação para o bloco “Porão do Dops” traz a imagem do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Brasil de Fato, Direitos Humanos, Torturador - São Paulo (SP) 13/Jan/2018 às 17:42 * foto capa da matéria (Delegado Fleury). Edição: Vanessa Martina Silva

Ana Paula Brito, doutoranda em História Social pela PUC, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, ressalta a simbologia por trás da homenagem ao torturador: "Quando se completam 10 anos que a Justiça reconheceu oficialmente o primeiro militar como torturador da ditadura, grupos da sociedade civil empreendem um ato lamentável, uma concentração lamentável contra os direitos humanos em apologia a crimes de lesa-humanidade".

O bloco “Porão do Dops” se refere ao Departamento de Ordem Política e Social criado em 1924 com o objetivo de controlar e reprimir movimentos políticos e sociais. No local, centenas de militantes foram presos e torturados entre 1964 e 1985.

Maurice Politi, um dos presos políticos encaminhados ao Dops nos anos 1970 é advogado e ex-militante da ALN, a Ação Libertadora Nacional. Ele considera uma afronta a existência de um bloco como este: "Todos aqueles que passaram pelas torturas na época da ditadura naturalmente se sentem ofendidos por essa ação porque ela não toma em conta todo o sofrimento que a ditadura causou aos brasileiros e brasileiras lutaram contra ela".

foto : Escracho em frente à casa do coronel Carlos Brilhante Ustra, em 2014 / Reprodução

Na imagem de divulgação do evento, os organizadores estampam a figura de Carlos Brilhante Ustra — coronel que comandou o DOI-Codi, um dos centros de detenção que mais matou e torturou durante a ditadura militar.

Politi considera que a ação do coletivo Direita São Paulo ocorre no atual momento político do país porque as pessoas se sentem mais à vontade de se manifestarem a favor da ditadura hoje do que, por exemplo, há quatro anos. "A gente está em um período de retrocesso geral na área de direitos humanos, basta ver os pronunciamentos do [Jair] Bolsonaro e de outras pessoas que se manifestam publicamente a favor de um resgate de um período histórico em que eles nem eram nascidos. 

A coordenadora do Memorial da Resistência de São Paulo, Marília Bonas, incentiva as pessoas denunciaram o evento nas redes sociais. O museu está instalado no local onde funcionava o Dops e se dedica à preservação de referências de resistência e da repressão política. "O que a gente vê é a memória com a qual a gente trabalha sendo alvo de chacota e de uma relativização, por fins políticos, dessa história tão grave que a gente preserva", lamenta.

Ela diz ainda que o que ocorreu na ditadura não pode ser partidarizado: "Além das 434 vítimas, a gente sabe que o número de pessoas impactadas pela ditadura no brasil foi muito maior, se pensarmos em camponeses, indígenas… A gente entende que essa é uma memória em disputa por questões políticas" 

Processo: Na segunda-feira (15), entidades em defesa dos direitos humanos vão protocolar uma petição para que o MPF, o Ministério Público Federal, se pronuncie diante do caso.

A iniciativa da petição é do Núcleo de Preservação da Memória Política e de organizações como o grupo Tortura Nunca Mais e o comitê Memória, Verdade e Justiça.

Além disso, o gabinete da vereadora Sâmia Bonfim, do Psol, estuda como entrar na Justiça contra os organizadores do evento para impedir a saída do bloco. O coletivo Direita Brasil cogitou marcar a concentração em frente à casa da vereadora.

Histórico: O grupo Direita São Paulo também tentou lançar o bloco Porão do Dops no ano passado, mas foi impedido por uma ação civil pública realizada pelo Núcleo de Preservação da Memória Política.

Ana Paula Brito, que integra a diretoria do núcleo, lembra que a iniciativa do Direita São Paulo constitui um crime: "Identificamos uma série de discurso de ódio, apologia à ditadura e à tortura, que é crime federal. Mensagens onde a barbárie vencia todo tipo de humanidade e respeito aos direitos humanos", lembra.

Após as críticas e reações na Justiça no ano passado, a página no Facebook foi cancelada e o MPF passou a investigar os perfis e comentários extremistas na rede social.

Em conversa telefônica com o Brasil de Fato, a assessoria da Secretaria Municipal de Prefeituras Regionais afirmou que nenhum dos 509 blocos cadastrados no carnaval de Rua de São Paulo neste ano ferem direitos humanos.

A pasta, que é responsável pela administração dos blocos de carnaval, disse ainda que a punição para casos que violem direitos humanos é de competência do MPF e informou que o bloco Porão do Dops não está cadastrado na programação oficial. Questionada, a assessoria não soube informar qual o procedimento para os grupos carnavalescos não oficiais que desfilem pela capital.
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Leia também:

MEMÓRIA: Ditadura militar: atualize as histórias que te contaram na escola - por Rafaella Dotta no Brasil de Fato Minas Gerais - Belo Horizonte (MG), 20/Dez/2017 às 10:51 - Indígenas, crianças e até mesmo o ex-presidente JK estiveram sob perseguição do regime ditatorial.

Acaba de ser lançado um relatório de quase 2 mil páginas com informações novas sobre como a ditadura militar agiu em Minas Gerais. O documento é resultado de quatro anos de pesquisas e entrevistas realizadas pela Comissão da Verdade de Minas Gerais (Covemg), com o objetivo de recuperar fatos que aconteceram entre os anos de 1946 a 1988... continua, acesse o link aqui!
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Investigação interna da Volkswagen indica colaboração da montadora com ditadura, por Camila Maciel, Agência Brasil via Brasil de Fato *  14/Dez/2017 às 11:11 - Estudo foi produzido após inquérito civil apurar responsabilidade da empresa em graves violações de direitos humanos

Relatório produzido a pedido da empresa Volkswagen (VW) indica a colaboração da montadora alemã com a ditadura militar brasileira, mas alega que ocorreu por meio de um chefe de departamento, “com o conhecimento tácito da diretoria”. A Agência Brasil teve acesso ao documento, entregue previamente a sindicalistas reconhecidos como vítimas. “A VW do Brasil foi irrestritamente leal ao governo militar e compartilhou os seus objetivos econômicos e de política externa”, diz o texto produzido pelo historiador Christopher Kooper, da Universidade de Bielefeld, na Alemanha, que sugere outras formas de colaboração da empresa com o regime militar... continua, acesse o link aqui!
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Na ditadura, empreiteiras "deitaram e rolaram" com recursos públicos, diz historiador, por Marco Weissheimer - Sul21 via Brasil de Fato, CULTURA, HISTÓRIA por Marco Weissheimer, 27/Nov/2017 às 09:48 - Em livro, Pedro Campos mostra como o poder de algumas empresas de engenharia cresceu durante o rompimento da democracia.

Pedro Henrique Campos: “Na ditadura, tivemos um cenário ideal para práticas ilegais” - Créditos: Guilherme Santos/Sul21

Os grupos que saem às ruas, hoje, vestidos de verde e amarelo, pedindo uma nova intervenção militar no Brasil, afirmam, entre outras coisas, que na época da ditadura não havia corrupção, desvio de recursos públicos e práticas desse tipo. Essa tese é desmontada pelo historiador Pedro Henrique Campos, professor do Departamento de História e Relações Internacionais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, em seu livro “Estranhas Catedrais: As empreiteiras brasileiras e a ditadura civil-militar, 1964, 1988” (Eduff), resultado da tese de doutorado defendida na Universidade Federal Fluminense, em 2012. Em sua pesquisa, o historiador mostra como o poder de algumas empresas de engenharia cresceu durante a ditadura em um ambiente sem liberdade de imprensa, sem órgãos de controle e fiscalização e sem participação da sociedade sobre as decisões do Estado... continua, acesse o link aqui!
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'Enquanto me dava choques, Ustra me batia com cipó e gritava', diz torturado aos 19 anos, por Luís Barrucho - BBC Brasil em Londres - 21/abr/2016 - "Nesse dia de glória para o povo brasileiro tem um nome que entrará para a história nessa data, pela forma como conduziu os trabalhos nessa casa. Parabéns, presidente Eduardo Cunha. Perderam em 1964. Perderam agora em 2016. Pela família e pela inocência das crianças em sala de aula que o PT nunca teve, contra o comunismo, pela nossa liberdade, contra o Foro de São Paulo, pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra (foto abaixo), o pavor de Dilma Rousseff, pelo Exército de Caxias, pelas nossas Forças Armadas, por um Brasil acima de tudo e por Deus acima de todos, o meu voto é sim."

Foi assim que o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ - foto abaixo) justificou o voto a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff no plenário da Câmara dos Deputados no último domingo. As declarações geraram polêmica, especialmente pela referência ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-chefe do DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna), órgão de repressão da ditadura. Ustra morreu aos 83 anos em setembro do ano passado... continua, acesse o link aqui!

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BARBÁRIE: Mulher conta o que viveu nas mãos do Cel. Ustra, homenageado por Bolsonaro - Pragmatismo Político, Redação - 19/APR/2016 ÀS 10:24 Em seu voto a favor do impeachment no último domingo, Jair Bolsonaro homenageou o Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, responsável por torturar centenas de mulheres na época da ditadura. O torturador chegava a introduzir insetos e roedores nas genitálias das vítimas.

Mulher lembra momentos de terror vividos com o Coronel Bilhante Ustra, homenageado por Bolsonaro. Amelinha Teles foi parar na ‘cadeira do dragão’. Nua, vomitada, urinada, Ustra ainda levou os filhos da vítima, de 4 e 5 anos, para assistir a mãe sendo torturada...

“Eu fui espancada por ele [Coronel Ustra] ainda no pátio do Doi-Codi. Ele me deu um safanão com as costas da mão, me jogando no chão, e gritando ‘sua terrorista’. E gritou de uma forma a chamar todos os demais agentes, também torturadores, a me agarrarem e me arrastarem para uma sala de tortura”.

Uma das milhares de vítimas da ditadura militar, Amelinha Teles, descreveu assim seu encontro com Carlos Alberto Brilhante Ustra, conhecido como “Coronel Ustra”, o primeiro militar reconhecido pela Justiça como torturador na ditadura... continua, acesse o link aqui!
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