10 de março, 2018
1218

A PODEROSA ALIANÇA GLOBAL DE ESPIONAGEM QUE VOCÊ NEM DEVE SABER QUE EXISTE, por Ryan Gallagher

The Intercept Brasil: É BEM PROVÁVEL que você nunca tenha ouvido falar de uma das mais poderosas alianças do mundo. Pelo simples fato de sua existência ser um segredo de estado – de vários estados – guardado a sete chaves. A “SIGINT Seniors” é uma coalizão entre agências de espionagem que se reúne anualmente para cooperar em questões internacionais de segurança. São duas divisões cuja atuação está concentrada em diferentes partes do mundo: SIGINT Seniors Europa e SIGINT Seniors Pacífico. Ambas são lideradas pela Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA), e contam com representantes de pelo menos outros 17 países. Os membros do grupo trabalham para agências de espionagem que interceptam comunicações, uma prática conhecida como “inteligência de sinais”, ou SIGINT [signals intelligence].

READ IN ENGLISH - SNOWDEN ARCHIVE -- THE SIDTODAY FILES - The Intercept Brasil, por Ryan Gallagher - 10/Março/2018 - 6h00 - Foto capa: Instalações de Defesa da Austrália em Pine Gap, 09/fev/2016. Tradução: Deborah Leão. ENTRE EM CONTATO: Ryan Gallagher - ryan.gallagher@​theintercept.com -  @rj_gallagher

Os detalhes das reuniões da SIGINT Seniors foram divulgados em um lote de documentos confidenciais do boletim interno da NSA, o SIDToday, obtidos pelo ex-agente Edward Snowden e publicados por The Intercept. Os documentos trazem à tona a história secreta da aliança, as questões sobre as quais as agências participantes vêm se debruçando recentemente, e os sistemas que permitiram aos países aliados compartilhar entre si informações sensíveis de espionagem.

A SIGINT Seniors Europa foi criada em 1982, em plena Guerra Fria. Naquele tempo, eram nove membros, cujo objetivo principal era descobrir informações militares da União Soviética. Depois do 11 de Setembro, o grupo aumentou para 14 membros e voltou seus esforços para o contraterrorismo.

O núcleo principal da Seniors Europa é formado pelas agências de vigilância dos chamados Cinco Olhos: a NSA e as equivalentes do Reino Unido, da Austrália, do Canadá e da Nova Zelândia. Em abril de 2013, entraram as agências de inteligência da Bélgica, da Dinamarca, da França, da Alemanha, da Itália, da Holanda, da Noruega, da Espanha e da Suécia.

A aliança – à qual a NSA algumas vezes se refere como os “14 olhos” — já atuou em cooperação para monitorar as comunicações durante importantes eventos europeus, como as Olimpíadas de 2004 (na Grécia), as Olimpíadas de Inverno de 2006 (na Itália) e a Copa do Mundo de 2006 (na Alemanha). Entre 2006 e 2007, como parte de uma operação de contraterrorismo, as agências começaram a tentar “tirar proveito da Internet”, o que foi descrito pela NSA como um “enorme avanço” para o grupo, uma vez que alguns dos membros estariam até então “relutantes em reconhecer a importância da Internet”.
Um oficial da Marinha do Canadá a bordo de um helicóptero patrulha as águas costeiras da Somália enquanto escolta um navio do Programa Alimentar Mundial, em 17 de setembro de 2008. Foto: Simon Maina/AFP/Getty Images

EM 2010, as agências estavam concentradas em localizar suspeitos de terrorismo, compartilhar informações de inteligência sobre pirataria na região do Chifre da África, e atuar em conjunto no desenvolvimento de novas técnicas e ferramentas de monitoramento. De acordo com os documentos, a Seniors Europa tinha sua própria rede de comunicação chamada SIGDASYS, por meio da qual as agências poderiam compartilhar cópias das comunicações interceptadas. O grupo também usava um sistema chamado CENTER ICE, especificamente para as informações de inteligência sobre a guerra do Afeganistão.

Os documentos indicam que a Seniors Europa faz uma conferência anual, cada vez em um lugar diferente. Em 2013, por exemplo, o grupo se reuniu na Suécia; em 2011, no Reino Unido; em 2010, na Alemanha; e em 2009, no Canadá. Em 2013, a NSA manifestou interesse em criar instalações permanentes para hospedar representantes da Seniors Europa em um espaço colaborativo comum. A agência discutiu a ideia com sua equivalente no Reino Unido, o GCHQ (Government Communications Headquarters). De acordo com a NSA, os britânicos estavam “dentro”. Houve, no entanto, “contínua resistência” ao plano por parte de alguns membros não identificados da SIGINT Seniors.

A NSA achava que a melhor localização para as instalações era o Reino Unido, que “seria ideal em termos de maior flexibilidade para ajustar a operação em benefício dos Cinco Olhos”. A agência também sugeriu a França como possibilidade, mas destacou suas restrições a instalar uma central de espionagem na Europa continental. “Alguns países europeus podem ficar receosos de abrigar essas instalações em seu território”, observou a NSA, em parte por “preocupações associadas à legislação europeia de direitos humanos”. (Tanto a NSA quanto o GCHQ se recusaram a se pronunciar sobre esta matéria. O GCHQ emitiu uma declaração afirmando que adere a “um rigoroso enquadramento legal e político, que assegura que nossas atividades sejam autorizadas, necessárias e proporcionais”.)

A divisão do Pacífico da SIGINT Seniors é mais recente que o braço europeu. Foi formada pela NSA em 2005, com o propósito de “estabelecer um esforço conjunto para combater o terrorismo na região da Ásia-Pacífico”. Em março de 2007, a NSA declarou que estava “debatendo ideias para expandir o foco da ação de inteligência [da SIGINT Senior Pacífico] para além do contraterrorismo”.

A NSA estava passando aos indianos material ultrassecreto específico, e a Índia começou a vazar algumas dessas informações de inteligência.

Quem fundou a aliança do Pacífico foram as agências de espionagem dos Cinco Olhos, juntamente com Coreia do Sul, Cingapura e Tailândia. Em 2013, França e Índia já haviam se juntado ao grupo. A NSA estava especialmente interessada na participação da Índia, como parte de um esforço mais amplo do governo dos EUA para estreitar relações com o país, e “acreditava francamente que a participação da Índia no compartilhamento multilateral de informações de inteligência ajudaria a amadurecer as agências indianas de SIGINT, bem como a obter expertise regional [em contraterrorismo]”. Em março de 2008, o então diretor-geral da NSA Keith Alexander liderou uma delegação de agentes — que incluiu representantes de Cingapura e da Nova Zelândia — em visita a Nova Déli, onde convidou as agências de espionagem indianas a unirem forças com o grupo. Três meses depois, os indianos aceitaram o convite.

O grupo do Pacífico usava um sistema chamado CRUSHED ICE para compartilhar informações. Segundo um documento da NSA datado de novembro de 2007, o CRUSHED ICE é uma rede segura que permite o compartilhamento de informações secretas de inteligência sobre contraterrorismo, obtidas por meio de interceptação de comunicações. “O sistema permite a colaboração por meio de voz, troca de arquivos binários/e-mails, análises e relatórios, gráficos e mapeamento, comunidades de interesse, gestão de coleções, e outros aplicativos que venham a ser necessários”, afirmava o documento de novembro de 2007.

Há benefícios óbvios para os países convidados a se integrar ao SIGINT Seniors: eles podem aprender novas técnicas de espionagem com as mais poderosas agências do mundo. Ao mesmo tempo, obtêm informações sobre seus próprios países e regiões, a que talvez não tivessem acesso de outra forma. Nem todos os países convidados a se juntar à aliança, porém, aceitaram o convite. Segundo um documento da NSA de março de 2007, o Japão se recusou a fazer parte do grupo do Pacífico, manifestando a preocupação de que “a divulgação não intencional de sua participação representaria um risco muito alto”.

Uma desvantagem do SIGINT Seniors é o risco de que um dos parceiros não dê tratamento adequado às informações sensíveis. Isso aconteceu em pelo menos um episódio envolvendo a Índia. Quando uma série de ataques terroristas atingiu Mumbai em novembro de 2008, o país já havia se juntado ao grupo do Pacífico. A NSA estava passando aos indianos material ultrassecreto específico, como relatórios de interrogatórios e gravações de ligações telefônicas interceptadas. Nas semanas que se seguiram aos eventos de Mumbai, a Índia começou a vazar algumas dessas informações. “Às vezes, parecia uma ocorrência diária”, reclamou o responsável administrativo da NSA no país. Ainda assim, a agência, que havia enviado analistas para a Índia, permaneceu confiante de que as agências de inteligência do país iriam “amadurecer […] e se tornar os parceiros de que a NSA precisa no sul da Ásia”.

O grupo SIGINT Seniors provavelmente permanece ativo até hoje, e é possível que tenha expandido suas habilidades nos últimos anos. De acordo com o “orçamento negro” de 2013 — uma parcela do orçamento federal dos EUA dedicada ao serviço secreto de inteligência –, a NSA estava trabalhando naquele ano para fortalecer as divisões da Europa e do Pacífico do SIGINT Seniors, e planejava “expandir o nível de cooperação [relativo ao contraterrorismo] e explorar outras áreas potenciais de colaboração”.
__________________________________________________________

Documentos publicados com este artigo:

Parceria SIGINT fecha acordo para aumentar compartilhamento

Compartilhamento de recursos linguísticos na região da Ásia-Pacífico dá um passo adiante

Mudanças na relação de contraterrorismo da NSA com a Índia

Conferência destaca sucessos do SIGINT Seniors Pacífico

Grupo de trabalho de análise de contraterrorismo se reúne em Madri

Pontos de discussão do diretor global de ambientes de colaboração

Relatório da Copa do Mundo feito pelo SUSLAG

Quem é quem no Afeganistão

SIGINT Seniors: escrevendo a história no bom sentido
__________________________________________________________

CONTEUDO RELACIONADO:

TRUMP CONSIDERA USAR REDE PRIVADA DE ESPIONAGEM CONTRA SEUS INIMIGOS INTERNOS, por Matthew Cole, Jeremy Scahill - 06/Dez/2017 - 8h53 - O GOVERNO TRUMP está analisando um conjunto de propostas para montar uma rede privada global de espionagem a serviço do diretor da CIA, Mike Pompeo, e da Casa Branca. O projeto foi desenvolvido por Erik Prince, fundador da empresa privada de segurança militar Blackwater, e por um agente aposentado da CIA — com auxílio do coronel reformado e hoje comentarista político Oliver North, figura-chave no escândalo Irã-Contras. Segundo relatam diversos agentes de inteligência americanos e outras pessoas que tiveram acesso às propostas, o objetido da rede privada seria contornar as agências de inteligência oficiais dos EUA. As fontes informam que os planos vêm sendo apresentados à Casa Branca como uma forma de enfrentar os inimigos que o governo Trump chama de “deep state” [“estado profundo” ou “estado paralelo”, que atuaria por trás das instituições oficiais americanas], formado por membros da comunidade de inteligência que buscariam enfraquecer a presidência de Trump...


SOFTWARE PIRATEADO PODE TER EXPOSTO FUNCIONÁRIO DA NSA À ESPIONAGEM RUSSA, Kim Zetter - 26/Out/2017 - 13h19
A KASPERSKY LAB, empresa russa de segurança da internet, informou que um indivíduo, possivelmente o mesmo que reportagens recentes identificaram como funcionário da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA), acionou o programa de antivírus da empresa ao se infectar com software malicioso durante uma tentativa de piratear o Microsoft Office. Acionado, o antivírus da Kaspersky teria feito upload de arquivos confidenciais da NSA que estavam na máquina.

A acusação de pirataria está incluída num conjunto de resultados preliminares divulgados pela empresa sediada em Moscou, decorrentes de investigação interna sobre um intrincado escândalo de espionagem que ninguém imaginava que pudesse ficar ainda mais bizarro. Uma série de notícias publicadas este mês cita fontes de inteligência dos EUA para afirmar que o software de segurança da Kaspersky teria feito upload de arquivos do computador do funcionário. Os arquivos então teriam sido capturados por hackers do governo russo, possivelmente com a ciência ou até mesmo a colaboração da empresa. Dentre os arquivos em questão, havia código-fonte de ferramentas de hacking altamente sensíveis que o funcionário estava desenvolvendo para a agência de espionagem. A Kaspersky nega que estivesse em conluio com as autoridades russas ou que tivesse ciência do incidente, conforme foi noticiado pela imprensa....
__________________________________________________________

Atualizado em 12/03/2018 - 11h21:  


A guerra sem tiros - Do Facebook de Luiz Carlos Azenha, para lembrar o que os tolos acham que só existe na História, não no Presente, o domínio do mundo pelos impérios, desde o Egito, de Roma, de Khan… por Fernando Briito no TIJOLAÇO em 08/03/2018

A Lava Jato é Guerra de Quarta Geração? por Luiz Carlos Azenha

Houve um dia em que os americanos levavam militares de seu quintal para treinar na Escola das Américas, primeiro no Panamá, depois na Geórgia.

Mas, se deram mal quando as ditaduras que estes militares ajudaram a implantar na América Latina assumiram tom nacionalista e/ou deixaram de obedecer fielmente ao Grande Irmão do Norte.

Uma delas explodiu uma bomba em Washington!

Jimmy Carter só se preocupou com os direitos humanos no Brasil depois que a ditadura local fez acordo para receber tecnologia nuclear da Alemanha.

Esqueçam, pois, os militares.

Fica mais fácil treinar juizes e promotores e enredá-los numa “cooperação internacional” entre desiguais, ou seja, um país que tem a Abin ‘coopera’ com um país que tem a National Security Agency.

Combater o terrorismo é apenas o cover da NSA e seu orçamento de bilhões de dólares (U$ 70 bi desde 2011).

Caso contrário, a NSA não teria espionado a Merkel, a Dilma e outros supostos aliados, como o fez.A NSA espionava a Petrobras atrás de algum terrorista? Por óbvio, ela faz arapongagem industrial e comercial no atacado.

E compartilha aquilo que descobre com outras agencias do governo americano, que por sua vez compartilham com outros governos de acordo com os interesses… dos Estados Unidos.

A Abin, ou a Polícia Federal ou o MPF tem tanta capacidade de investigar, vamos dizer, a Microsoft, quanto a NSA tem de gravar conversas, futucar e-mails e saber absolutamente tudo sobre a Odebrecht, em qualquer parte do mundo?

Ou eles estão só comendo donuts lá em Maryland?

Aquela cooperação off the books entre procuradores norte-americanos e brasileiros, admitida pela partes como algo corriqueiro, é justamente para isso.

O cara do FBI dá a letra sobre tudo o que levantou sobre a Brasil Foods nos EUA e o delegado da PF conta tudo o que investigou sobre a Boeing…

Pausa para rir.

Guerra de quarta geração: derrotar o inimigo sem um tiro sequer, para evitar o trauma do Vietnã e do Iraque.

Tem uma divisão inteira do Pentágono só estudando isso. E, obviamente, colocando em prática.

Pré-sal, indústria do petróleo e gás, indústria naval, engenharia de ponta, processamento de alimentos e, em breve, engenharia aeronáutica e aeroespacial.

Com o desmanche, que resulta de uma crise econômica amplificada pela Lava Jato, o Brasil se tornou mais do que nunca um mero estacionamento do dinheiro gordo, seja chinês ou estadunidense.

​Logo nossa mão-de-obra empobrecida vai montar as bugigangas para acompanhar a ascensão social da classe média chinesa, agora que a massa salarial per capita da China ultrapassou a dos brasileiros.

Já os americanos, fazem mais valia no Brasil vendendo até chicletes e jornais nos aeroportos (Hudson News, eu te conheci criança, em Nova York). 

Dono da maior reserva de petróleo descoberta nos últimos 50 anos, o Brasil tornou-se exportador de óleo cru e importador de derivados do petróleo, operando suas refinarias abaixo da capacidade de produção.

Ah, guerra de quarta geração, você não passa de uma teoria de conspiração!
__________________________________________________________
Acesse, curta e recomende o JORNAL DO NASSIF

Participe do BLOG e comente esta matéria (dentro das regras abaixo)!

- Enviaremos um e-mail para confirmar se a postagem realmente é sua e não um fake (seu endereço de e-mail não será publicado, será mantido sob sigilo).
- Os comentários serão moderados e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva do autor do comentário.
- Não serão aceitas mensagens com links externos ao site, em letras maiúsculas, que ultrapassem 1000 caracteres, com ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência.
- Não há, contudo, moderação ideológica.
A ideia é promover o debate mais livre possível, dentro de um patamar mínimo de bom senso e civilidade.
Obrigado!

Limite de caracteres no comentário : 1000

Total restante: